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Elogio Sociologico da Cultura das Saunas na Finlandia Elogio Sociologico da Cultura das Saunas na Finlandia
by Alexandra Pereira
2006-12-16 10:30:15
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A nudez torna os homens mais iguais entre si: expõe fragilidades (as nossas e as dos outros, de mulheres e homens, crianças e velhos de todas as raças, eunucos, doentes, deficientes), não deixa que as posses materiais se interponham entre os homens como sinais distintivos causadores de injustiças sociais. Não importa qual a religião, raça, clube ou partido político, toda a gente nua se assemelha duma forma ou doutra, pelo menos mais entre si do que com os chimpanzés. A nudez reforça a identidade grupal da espécie e impõe naturalidade onde ela deve saudavelmente existir, isto é, na vivência do corpo e da sexualidade. É uma pena que tão poucas praias portuguesas sejam aproveitadas para cultivar a nudez, com a qual, por exemplo, os nossos amigos brasileiros tão bem convivem. Destina-se este curto texto a fazer o elogio sociológico da cultura das saunas na Finlândia.

Apesar da nudez envolvida (e por vezes até de modo misto, com frequentadores de ambos os sexos) no caso das saunas, que proliferam um pouco por toda a Finlândia, a igreja Luterana não adoptou em relação a este hábito cultural qualquer medida restritiva ou punitiva, tendo até mandado construir as suas próprias saunas. Neste país nórdico, era usual as mulheres darem à luz na sauna e esse facto era encarado como trazendo boa fortuna ao recém-nascido, como terá sido o caso do mítico presidente Kekkonen. As crianças frequentam semanalmente a sauna desde a mais tenra idade (por vezes antes dos dois anos), de modo que, apesar das regras de conduta que terão de cumprir nesse espaço, crescem numa cultura de naturalização e controle dos instintos, e vivência saudável do corpo.

É curioso notar que a vivência saudável do corpo tem, na Finlândia, transposição para a vivência salutar da sociedade como “um corpo” íntegro, onde as desigualdades não serão tão gritantes e as classes muito mais esbatidas do que no Sul da Europa (um operário pode muito fácil e naturalmente ganhar mais do que um professor universitário, por exemplo – o que, de resto, faz todo o sentido, pois quem estiver disposto a desempenhar, na sociedade, funções monótonas e desgastantes deve ser recompensado por isso). Ou seja, enquanto no Sul da Europa o tecido social é “amputado”, com membros dispersos pelo alcatrão como um automobilista recentemente acidentado – o acidente pode ser mais ou menos grave, em função da região sulista à qual nos reportemos... –, neste país nórdico tanto a segurança do corpo social como o planejamento das autovias são de modo a evitar tais acidentes. À amputação do Sul, junta-se a gravíssima reprodução social, cultural e educativa das desigualdades económicas verificadas, de modo que o “acidente” do corpo social se prolonga, muitas vezes, por gerações sucessivas, sem esperança de melhores condições de vida nem duma sociedade mais justa e igualitária para todos. Escusado será dizer que a corrupção e as lutas de poder mantêm e agravam a ausência de fiscalização, o vácuo no que diz respeito à luta pelos direitos fundamentais dos cidadãos e o buraco negro em que caiu, por algumas terras a meridião, a consciência social.

A nossa hipótese é a de que a convivência de igual para igual com o outro, sem posses nem roupagens de permeio, proporcionada pelas saunas finlandesas (e existem mais de um milhão de saunas num país com pouco mais de cinco milhões de habitantes), a coexistência civilizada e exposição diária de vaidades e fragilidades, não só solidariza e desperta a consciência social, como reforça a “coesão do corpo” comunitário, sensibilizando para as necessidades dos indivíduos que dele tomam parte. Ou seja, há uma maior consciência de que o todo, ainda que constituindo redes de relações e introduzindo dinâmicas novas, é formado elementarmente pelas partes, e que a satisfação e bem-estar dessas partes é condição necessária à não-desagregação, evitamento da fractura, rebelião e aborto da sociedade como um todo (e, consequentemente, dos projectos e objectivos sociais por ela visados). Uma mesa sem pés é uma tábua que cai por terra – este princípio básico parece difícil de compreender pelas autoridades e governos sulistas. Ou pode suceder que os povos do sul amem o caos – ou, simples e mais provavelmente, desprezem a justiça, não tendo para ela (muito menos NELA) sido educados. As injustiças sociais são reproduzidas e perpetuadas pelos próprios injustiçados que, tendo visto as suas necessidades e aspirações frustradas, procuram a partir daí bloquear a felicidade e realização até dos seus filhos e netos, por “melhores” que sejam as suas inocentes intenções primeiras. Estas pessoas mentem a si próprias e àqueles que as rodeiam, jurando para si mesmas serem felizes (ao trabalhar como cães em condições insustentáveis e com ordenados de miséria), viverem num país livre e justo – onde os cidadãos são tratados de forma igualitária e a democracia alastra da esfera social ao domínio doméstico, económico e cultural – e, além de tudo isso, ter esse país onde vivem (e do qual a maior parte nunca saiu, ou saiu directamente para um “gueto suburbano” de portugueses ou quejandos) um clima óptimo e manjares apetitosos, de encher tanto o olho como a barriga ao ocioso turista e a carteira aos locais. Não visamos aqui, porém, a crítica, mas sim o elogio – situando-o noutras latitudes; é, portanto, outro o teor das nossas conversas: querem-se finlandesas e civilizadas, com muitos ä em todas as frases. Arredada a “maledicência” (e falta, por terras do sul, descobrir o quanto pode ser construtiva aquela aptidão crítica famosa e injustamente rotulada de “maledicência”), resta-nos verificar o quanto a doutrina católica, inexpressiva na Finlândia e carregando às costas todas as doutas heranças do judaísmo – incluindo uma culpabilização atroz –, pune e desaprova a exposição pública do corpo como um pecado que, ao mesmo tempo, é delituoso e condenável e, por conseguinte, tem tanto de religioso como de ostracizante em termos sociais, responsável ou culpado no âmbito político e moralista/culpabilizante ao nível individual.

A cultura da sauna finlandesa envolve toda uma série de rituais, como atirar periodicamente água sobre as pedras aquecidas com o objectivo de produzir vapor (tornando o ambiente menos seco e mais húmido), estimular a circulação sanguínea batendo com ramos de folhas húmidas de vidoeiro pelo corpo, sair de tempos a tempos da sauna para tomar um duche (humedecer a pele) ou até para rolar na neve, soltando fumo, e beber uma cerveja e comer uma salsicha com os amigos depois da sauna. Um amplo conjunto de elementos sensoriais está envolvido neste ritual – como o cheiro a madeira e a folhas de vidoeiro, os choques térmicos, o suor, o frio, o calor, a sensação de bem-estar, a sede, a fome e a sua satisfação ou o relaxamento muscular –, tornando-se essas vivências quotidianas e basilares do povo finlandês, para o qual o contacto com a natureza (nadar nos lagos, passear na floresta, colher bagas ou cogumelos, brincar e praticar desportos na neve) é, de resto, fundamental, pelo bem-estar físico e psíquico que induz, através das diferentes sensações experimentadas. O inverno rigoroso retira cheiros (logo, parte dos sabores) e uniformiza texturas, introduz o silêncio no lugar do canto dos pássaros, substitui a luz pela noite (o sol da meia-noite pela noite ao meio-dia), gela águas, branqueia o horizonte, purifica e renova, de certo modo esteriliza e congela – torna-se, portanto, necessário estimular os sentidos com maior vigor e audácia, um pouco como quem pretendesse acordar um animal em hibernação, para sentir em pleno o pulsar da vida, manter desperto o corpo com todo o rigor, atentos os reflexos e apurados os sentidos. Dois outros elementos fundamentais da sauna são, por um lado, a estimulação sexual ou excitação involuntária que ela produz (pelo aquecimento, suor e estimulação da circulação sanguínea em todos os órgãos) e, por outro, o embalo ou “nurture” sentido (é um lugar como um útero ou um regaço, protector e protegido), tanto mais que era hábito as mulheres darem à luz nesse ambiente, que facilitaria o relaxamento dos músculos pélvicos (tornando os partos menos dolorosos ou problemáticos) e constituiria, para o bebé, um meio óptimo de chegada, acolhedor, quente e húmido como o ventre materno, além de lhe estimular o início da respiração (dilatando o diafragma e as vias respiratórias, relaxando os músculos torácicos, etc.). No que diz respeito a estes dois últimos elementos, cabe-nos notar, quanto ao primeiro, que as regras de conduta a cumprir na sauna exigem controle dos impulsos sexuais (a sauna é um local quase sagrado para o povo finlandês), além de a natural timidez finlandesa ser, por si só, bastante para garantir o respeito pelo próximo, mas sem lançar venenosos sentimentos de vergonha sobre a nudez de cada um e, em segundo lugar, que a sociedade finlandesa é, não obstante este respeitoso civismo, aquela que, na europa, apresenta comportamentos sexuais mais liberais. Quanto ao segundo elemento (a sauna como um meio protegido e acolhedor), deve ter-se em consideração que os próprios materiais usados na construção duma sauna – tipicamente, o revestimento de todas as paredes principais e dos bancos com madeira – denuncia ainda vínculos às florestas e ao apaziguamento que esse ambiente natural propicia, ao mesmo tempo que se trata de um material quente e moldável, com uma textura e cheiro bastante característicos. Mais uma vez, os sentidos são acordados, o olfacto estimulado, o contacto com odores, superfícies e sensações é favorecido.

A ligação às sensações proporcionadas pelos ambientes naturais, segundo é nossa convicção, proporciona bem-estar e qualidade de vida, além de que o estímulo sensorial é a base necessária para todo o raciocínio lógico e abstracto, os quais desenvolve (e esta relação está estudada, segundo padrões ocidentais, pelo menos desde Piaget). Mas o que nos entra pelos sentidos dentro, ou até as sensações que procuramos nós próprios experimentar por salutar curiosidade, fazem com que tomemos consciência de que pertencemos a um todo mais vasto e com ele nos deveremos harmonizar, procurar um equilíbrio que nos ligue às coisas de forma benéfica para ambos os pólos, o natural e o humano, o inextrincável e o óbvio. A metáfora finlandesa da “máquina capaz de tudo produzir” talvez não seja mais do que uma representação simbólica da natureza e da luta que o homem empreendeu para a dominar ou possuir, tendo o povo finlandês chegado à conclusão de que talvez seja melhor optar pelo desenvolvimento sustentado, respeitar e saber aproveitar os recursos e caprichos naturais, do que simplesmente apoderar-se deles, pois ninguém pode apoderar-se do que é já parte de si próprio.

Chegados a esta conclusão, verificamos que a lição foi de tal ordem que quis o homem, a determinada altura, criar tempo quente no frio polar. Assim nasceram as saunas, ou a cultura finlandesa delas. Aproveitando os materiais quentes e nobres que a natureza setentrional oferece, pôde-se conceber um ambiente quente e utilitário, para ajudar a suportar o rigor invernal. A cultura das saunas é assim, na Finlândia, uma história de sobrevivência e teimosia, bem como da exigência de conforto ao enfrentar os aspectos mais implacáveis da natureza. Esta história de audácia tem outros exemplos cabais na ferocidade demonstrada pelos guerreiros nórdicos, desde os seus antepassados Vikings até à corajosa empresa dos dirigentes e tropas finlandesas nas mais recentes lutas pela independência nacional, com a libertação consecutiva do jugo de dois impérios, o sueco e o russo, e a afirmação definitiva da soberania da “senhora de branco”. Pode-se então dizer que a relação dos finlandeses com a natureza é pautada pelo respeito, e também esse respeito é imposto quando há que lidar com as tendências imperialistas de outros povos, quer se tratem das potências vizinhas quer não. A neutralidade e humanismo das suas políticas externas reflectem também as consequências, em termos de mentalidade e nível de exigência dos eleitores, de se ter um dos melhores sistemas de ensino da Europa e uma população altamente educada, por comparação, por exemplo, com outros países europeus mais pobres, onde o acesso ao ensino é vedado ou filtrado graças a questões iníquas como aquelas que se encontram relacionadas com a capacidade económica dos cidadãos. De que forma se relaciona a sauna com o ensino? A maneira finlandesa de estar na sauna é só mais uma expressão de civismo. Daqui deveremos depreender que o povo finlandês é superior em civismo? Não, mas talvez os seus cidadãos o sejam em dignidade. A dignidade é o orgulho matizado pela educação. E é na educação e reivindicação do lazer que os nórdicos nos batem aos pontos. Aquilo que, por exemplo, os portugueses deixam que os seus governos façam consigo, quer em termos de segurança social quer no acesso à educação, é para os finlandeses (e outros povos de diferentes latitudes) perfeitamente impensável.

Enfim, baseia-se o nosso elogio sociológico da cultura das saunas na Finlândia em todas as razões atrás expostas, as quais poderão resumir-se do seguinte modo: a cultura da sauna é uma expressão de civismo e as expressões de civismo devem ser encorajadas, já que elas constituem, nas sociedades de modelo “ocidental”, um reflexo da qualidade educativa dos seus cidadãos. A cultura da sauna irmana seres humanos de diferentes sexos, estratos sociais ou económicos, idades e culturas por meio duma experiência única e comum, que se quer positiva, física e psicologicamente revigorante – e tudo aquilo que sirva, hoje em dia, para irmanar os seres humanos entre si é, no mínimo, louvável. Foi também nossa hipótese (tão irónica quanto, em lógica, surpreendente) que este sentido de unidade grupal pudesse resultar no desenvolvimento mais sensível e apurado, pelos indivíduos, dum sentimento de identidade ligado à imagem abstracta do “corpo social”. A cultura da sauna introduz, além disso, o lazer no espaço de trabalho, leva os negócios e as discussões criativas até àquele lugar de relaxamento público ou íntimo, ou seja, poupa tempo no trabalho e simultaneamente expande-o no lazer – porque é sintética, adaptando-se a diferentes funcionalidades. Finalmente, a sauna enquanto ritual “desintoxicante” e “purificador” torna-se numa experiência quase espiritual onde os sentidos despertam e a mente relaxa, se aguça ou medita, ao mesmo tempo que facilita os primeiros contactos do indivíduo com o corpo dos outros, o desenvolvimento da imagem corporal e, a longo prazo, o à-vontade no seu próprio corpo.

   
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Comments(1)
Get it off your chest
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Sérgio Chaves2007-01-16 15:40:14
Goste mesmo do que lê moça


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